A paternidade e a contrapartida de receber muito mais do que doar; escreve Marcos Thomaz

Naquele dia de trocentas idas a banco em um mesmo dia, além de outras dessas burocracias insuportáveis até a um adulto, Ben continuava a tentar se distrair transformando o largo pátio do autotendimento de uma agência em pista de atletismo… Entre idas e vindas, “largadas e chegadas” imaginárias, foi abordado por uma senhora desconhecida, que há tempos observava tudo e aproveitando um dos poucos segundos de inação dele falou: “Vamos ao parque com a titia?”. Ele, até então encostado a mim, apenas olhava em direção a autora do tentador convite ainda sem esboçar resposta. Ela insistiu: “vem comigo, vamos passear no parque…” Desta feita, já agarrando minha perna com mais força, ele respondeu seguro e resoluto: “Não vou, porque não vou deixar meu papai sozinho ‘ati’ ”.

 

Sempre nos impressionou (a mim e a mãe) a capacidade do Ben em adaptar-se, sua extrema compreensão, paciência e tolerância em acompanhar-nos nessas enfadonhas e desgastantes tarefas protocolares da vida de adulto. A correria do dia a dia e a circunstância de poucos familiares próximos (apenas a Tia Dani e o Tio Rafa, na verdade) talhou esta personalidade resiliente, companheira, “pau para toda obra”…

 

Desde muito novo, ainda bebê, com meses, participa ativamente da nossa rotina, muito além apenas dos cuidados naturais e diversões pueris, mas nos acompanhando em multitarefas… Seja na convencional ida ao ambiente de trabalho dos pais passar uma tarde, ou manhã em corredor de repartição; marchando junto em ativismo político/ideológico (sim, ele já sabe que #elenão), indo curtir um rock,  jazz, ou pé de serra, e mesmo resolvendo burocracias e abastecendo os insumos da nossa loja, “batendo perna” no “olho do furacão”, epicentro do comércio!

 

Uma dessas “parcerias de trabalho entre nós” é bastante ilustrativa. Fui convidado por um amigo para administrar o bar de um evento aqui em João Pessoa. Topei na hora, claro. Além da grana extra, meus olhos brilharam com a oportunidade de reviver os intensos dias de Galpão 14, bar de rock que mantive com os amigos Eliseu e Tiago (esse último portador do novo convite) por quase 3 anos aqui em João Pessoa! Com todos esses ingredientes lá fomos nós, eu e meu caçula, então com apenas 10 meses visitar por dois dias a fio quase uma dezena de distribuidores de bebidas, atacadistas de descartáveis e tudo o que se faz necessário para um “open bar” funcionar a pleno vapor. Roteiro cumprido por 2 bairros, no alucinante sistema de “para, tira da cadeirinha, desce, sobe, bota na cadeirinha, para de novo etc” e sob o sol a pino do verão pessoense! E o Ben?? Firme e forte, colorindo a pesquisa de preços e, entre risos e fraldas borradas apresentando as credenciais de Companheiro Fiel.

 

Aliás, fui contemplado com esta virtude e responsabilidade em lidar com a precocidade nos meus dois filhos. Tom, o primogênito, também pela natureza das coisas, com genitores separados, eu pai muito jovem, sem nenhum amigo com filho etc. Nesse cenário, nos dias em que estava comigo ele ia crescendo, se desenvolvendo e ambientando em meio aos “marmanjos”. “Nessa pegada”, eu ainda estudante e o Tom com a mesma idade do Ben hoje (2 anos) rumamos em uma aventura de ônibus para a minha terra e onde ainda reside minha família (Itabuna-BA). 22 horas de viagem em poltrona única. Sim, para economizar comprei apenas um assento e assim seguimos “suave na nave”. Com os tradicionais banhos de beira de estrada, alimentação nas paradas e cochilos de bordo, sem qualquer percalço, nenhum momento de perturbação dele, a não ser a cantilena: “pai está chegando?”. Eu: “ainda não, filho”. Dali a 15 segundos, o troco: “e agora?”. Ainda fomos agraciados com uma simpática senhorinha que logo se afeiçoou ao Tom e graciosamente ofertou o espaço entre poltronas a ele. Viva a empatia!!

 

Se com meus pais já havia aprendido o quanto eu e meus irmãos também poderíamos ensiná-los, ou fazê-los ver o mundo de outra forma, nesta constante troca de experiências, com meus filhos exponenciei esta percepção a níveis ilimitados. Tomás e Benjamin são versões bem melhores do que eu. Graças. Assim, também me melhoram, me fazem ter mais parcimônia e me ensinam a ser mais resistente as agruras da vida.

 

Aos meus garotos. O melhor de mim está em vocês!!

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