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ECOS DA IGNORÂNCIA – Sobre negacionismo, morte e amores além; por Marcos Thomaz

Era noite, tempo corrido, dia de evento externo, com a barriga vazia buscava algum lugar para comer!

 

Tudo fechado nas redondezas, restou-me uma birosca suja, típica de “caneiro”. Duas mesas ocupadas por beberrões solitários, acima da meia idade.

 

Eu só queria comer na ocasião, devo registrar.

 

Nem uma mísera estufa suja com salgadinho mofado se apresentava no recinto.

 

Pergunto a senhora simpática sobre algo mais “sólido”, além dos chips de todas as cores e formas pendurados em barbante ao longo de todo o balcão.

 

“Cuscuz só sai na hora e a macaxeira acabou”, responde sorridente e, claramente, buscando ser providencial para a minha indisfarçável cara de faminto.

 

A barriga ronca e o compromisso já está em cima da hora.

 

Sem escolha e precisando “forrar o bucho” com qualquer coisa, recorro a batata industrializada, como sempre, antevendo o arrependimento que logo virá.

 

Na parede lateral ao balcão, um lado de cor azul e outro rosa, respectivamente com os nomes menino e menina. Uma clara alusão a um chá de revelação, confirmado pela senhora: “meu primeiro neto”.

 

Enquanto me serve o aperitivo junto com a coca-cola a proprietária, exalando cheiro de óleo de cozinha misturado ao suor de um dia inteiro, fala sobre cansaço…

 

Pergunto acerca da rotina dela e logo discorre sobre a dificuldade cotidiana com a perda do marido, condutor original do estabelecimento de ambos.

 

Diz que estão ali há mais de três décadas e ele havia falecido há apenas quatro meses tornando-a responsável única do espaço, deixando as jornadas extenuantes.

 

O relato de fadiga do trabalho veio acompanhado de suspiro e olhos embaçados.

 

Era a manifestação espontânea, incontida de saudades do companheiro, mesmo que revelada há um desconhecido até instantes.

 

Atento a realidade que nos acomete há mais de ano pergunto, despretensiosamente, se a causa da morte do marido foi o maldito Coronavírus?!?!

 

A confirmação veio acompanhada de ar de reprovação ao frisar que ele se recusou a tomar a vacina.

 

Sem conseguir disfarçar o espanto, lamento pela perda dela e questiono se ela própria estaria vacinada?!?!

 

Abandona o ar de lamento anterior e, resoluta, afirma que, assim que foi liberada a vacinação para sua faixa etária, pediu aos filhos para agendarem para o primeiro horário. E assim o fez…

 

Em meio a fala atropelada, mas constante, retoma a emotividade e frisa que, por teimosia, o companheiro não poderá ver a chegada do neto.

 

Emenda relatando o quanto ele era querido por todos, que muitos sequer tiveram coragem de ir ao bar depois da morte dele, devido ao grau de amizade que existia entre o finado e os clientes.

 

Já mais exaltada pelas lembranças reavivadas, acende esbaforida um cigarro, com as mãos trêmulas riscando nervosamente a caixa de Fiat Lux.

 

Com o cigarro pendurado entre os dedos, aponta com a chama acesa para um dos presentes, frisando que “fulano” era um dos melhores amigos dele.

 

Quase simultaneamente a TV ligada no telejornal anuncia novo aumento de gasolina.

 

Enquanto um cachorro sujo, idoso tentava, sem sucesso, comer a ração, cuidadosamente, deixada no canto, o senhor de uma das mesas, maltrapilho, pragueja o novo aumento dos combustíveis.

 

Imediatamente o ocupante da outra mesa retruca (era aquele apontado pela senhora “dentre os melhores amigos” do marido que partiu).

 

Bem vestido, chaveiro de utilitário sobre o tampo, ao lado do copo, imponente, começa a discursar que “a culpa é dos governadores, ICMS… o presidente fez o que pôde…”

 

A senhora se aproxima um pouco mais e sussurra baixinho: “esse daí também não se vacinou. Diz que as vacinas não são confiáveis e vão nos encher de doenças…”

 

Ainda estava na metade do saquinho de chips, mas a azia já embrulhava o estômago. Me despedi de maneira açodada da mulher, paguei e desejei boa sorte.

 

No trajeto de volta ao trabalho pensava como, mesmo sepultada, a ignorância reverbera.

 

Ecos do além ainda ressoando “obscurantismo” entre os pares vivos.

 

Triste quando a morte de um ignorante sequer serve de ensinamento a outro ignorante.

 

Esse povo não respeita, pelo menos, os mortos. Nem que sejam os quase 600 mil compatriotas, ou mesmo alguém, querido, próximo, íntimo…

Fábio Augustohttps://pautapb.com.br
Formado pela Universidade Federal da Paraíba em Comunicação Social, atua desde 2007 no jornalismo político. Passou pelas TVs Arapuan, Correio e Miramar, Rede Paraíba de Comunicação (101 FM), pelas Rádios 101 FM, Miramar FM, Sucesso FM, Campina FM e Arapuan FM.

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