Shiko é uma das minhas primeiras e principais referências artísticas paraibanas.
Na verdade, não dá para imaginar a atmosfera urbana pessoense sem os traços de Shiko. É impossível dissociar a estética da capital da sua obra.
João Pessoa exala Shiko pelos poros dos seus espaços públicos, privados, muros, paredes, monumentos, cartazes, cena cultural.
O artista que mais ilustrou o cotidiano local nas duas últimas décadas.
Talvez ele nem se lembre, mas carrego na pele um pouco dessa marca. Espontânea e voluntariamente Shiko deu contornos próprios a um esboço de desenho para uma tatuagem minha, instantes antes de começar a sessão. Ali, no antigo estúdio do grande Jason, na Ruy Carneiro, travávamos nosso primeiro contato, em meio a cafés, cigarros e conversas sobre rock’n roll, literatura e afins.
“A parceria” seguinte foi Shiko dar vida as paredes escuras do Galpão 14- Aumenta que é Rock Bar, “inferninho-pub” que tocamos no Centro Histórico da capital por 3 anos.
Foi com este sertanejo, radicado na capital, que conversei nesta nova e imperdível edição do Tabajara Entrevista.
Nascido na Patos setentista, Shiko, paradoxalmente, teve que quase negar as origens para se entender com o mundo, ou captar o seu lugar neste microcosmo. Artista universal, cosmopolita, híbrido, de múltiplas e diversas influências.
Mas se engana quem, precipitadamente, em interpretação do que tratei como “negar as origens”, entende isso como rejeição perene, eterna.
Talvez apenas um processo necessário para ampliar os próprios repertórios e formar sua percepção individual, além de modelos pré-estabelecidos sobre terra, tradições, vínculos enraizados etc.
Hoje a ancestralidade está toda ali, em cada traço do sertanejo global.
Não poderia se exigir convencionalidades assim a um libertário, que tem a ruptura de estruturas como parte fundamental de sua essência e transfere tudo isso à sua obra com maestria, sensibilidade inata aos gigantes artísticos.
Grafiteiro, quadrinista, desenhista, ilustrador, roteirista, diretor de curtas… essas são alguma das principais facetas do menino batizado como Francisco José de Souto Leite.