NOSSAS PRÓPRIAS CONTRADIÇÕES E O JUÍZO FINAL SOBRE OS OUTROS – por Marcos Thomaz

Essa pandemia, além de todo tipo de mazela a que nos submeteu, serviu para reavivar a tradicional aversão oriental que, ao longo do tempo, sempre foi “embutida” em nós, aqui do outro lado do mundo!

É um tal de “vírus chinês”, demonização dos “comunistas de araque” (valeu Caburé), morcego do cão e todo tipo de praga contra os “olhinhos puxados”.

Sei lá, talvez essa mesma repulsa ocorra de lá pra cá também, mas aí deixa para os orientais analisarem e resolverem.

A zorra aqui já está por demais confusa para cruzar oceano com filosofia de boteco.

Fato é que, como humanos, tudo o que não é costume nosso nos causa estranhamento. Tudo o que está fora do nosso rol de hábitos é logo taxado como esquisitice. Como já dizia Caê “é que Narciso acha feio o que não é espelho”.

Historicamente isso foi sempre muito bem apropriado por pensamentos dominantes, culturas hegemônicas como estratégia de manutenção de controle dentre outras artimanhas e “tenebrosas transações”…

Certo, mas esse “arrudeio” todo é pra que??

Nesta perspectiva vã e rasa (dentre um gole e outro, “que também sem uma cachaça ninguém segura esse rojão”- valeu Chico) me refresca a memória o que melhor exponencia o estabelecimento dessa normatização cultural no ocidente senão dois pilares de crenças e costumes dessa tal “civilização moderna”! Sim, estamos falando das duas maiores religiões do Hemisfério Ocidental, que de repente, voltou a ser referência de movimentos radicais, de extrema direita.

Afora debates mais densos sobre a real existência da tal “civilização judaico-cristã”, fato é que voltou a tona entre alguns bastiões da moralidade remeter ao Judaísmo e ao Cristianismo como fornecedores, consolidadores do conjunto de normas e regras sociais do Ocidente, este lado do Globo onde nossa terra “cheia de árvores e gente dizendo adeus” está inserida.

E o bom é que esses mesmos (Católicos, judeus…), que segundo o “povo de bem”, defensor da família e propriedade, nos impuseram as tradições, regramentos e afins, melhor evidenciam nossas contradições. Uns em menor escala que outros, claro…

Sempre me intrigou um questionamento simples envolvendo, embaralhando ambas as religiões…

Primeiro os Judeus, desde sempre perseguidos sob motivações e tentativas de legitimações das mais diversas. Desterrados, espalhados pelo mundo e vítimas do maior genocídio étnico da humanidade, em termos globais durante a Segunda Guerra Mundial… Pois bem, esse mesmo povo, em maioria, negou em absoluto a existência de Jesus, como enviado de Deus. Até aí tudo bem. Ninguém é obrigado a crer em nada, ou não deveria. Mas fato é que Jesus era um deles, filho daquele mesmo árido e fértil solo, e pelos próprios “pares” foi torturado, execrado e crucificado. Tal qual séculos depois, em nome desse mesmo “santo” à época negado, seguidores de outra crença perseguiriam os judeus, antes perseguidores de Jesus. As capotadas que o mundo dá!

Mas nada supera a incongruência da Santa Igreja Católica, berço do Cristianismo e maior representação mundial dessa crença. O catolicismo tem o cerne dogmático centrado em um judeu. Vem de Jesus, inclusive o nome do Cristianismo, que reúne o maior números de fiéis do mundo. Mas é esse mesmo catolicismo quem funda as bases do antisemitismo moderno. Foi durante séculos o catolicismo o propagador da aversão a judeus, da estigmatização de um povo, tão bem apropriada pelo nazismo alemão e facismo italiano. Hitler e Mussolini, à época, inclusive relataram e utilizaram conceitos estabelecidos pelo catolicismo em documentos oficiais e homilias tradicionais contra os judeus para dar “roupagem” a política de extermínio desse povo.

O Vaticano à época assistiu tudo, quase cúmplice, mas sem dúvida condescendente.

Sim, mas onde o rabiscador quer chegar?

Eu não quero desconstruir crença de ninguém, menos ainda desconstruir doutrinas. Não tenho interesse, quiçá envergadura para isso, que definitivamente não é o alvo aqui. Mas não me venham dourar a pílula sobre valores e afins. Um simples olhar coloca em xeque a romantização absoluta em torno dessas tradições. E eu prefiro sempre rever meus conceitos, sobre mim e os outros.

Como questionam os geniais mineirinhos:“Por que vocês não sabem do lixo ocidental?”

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