CAMILO DE HOLANDA – Demétrius Faustino relembra a trajetória do ex-presidente da Província Parahyba do Norte

Por Demétrius Faustino

 

O presidente da então Província Parahyba do Norte Francisco Camilo de Holanda, foi personagem de um dos casos mais notáveis da oligarquia Nordestina na chamada República Velha.

Camilo de Holanda, como era mais chamado, tornou-se inimigo do governador Antônio Pessoa, que era irmão do todo-poderoso da política paraibana, o futuro presidente da República Epitácio Pessoa, e que segundo ele, foi o homem “mais ronhento que já existiu no mundo”. Epitácio Pessoa, em vez de dar apoio a seu irmão para seguir no posto, preferiu aliar-se a Holanda, que se tornou o novo chefe do Poder Executivo no estado. Sentindo-se apunhalado pelas costas, dentro da própria família, Antônio Pessoa se recusou a passar o cargo para o inimigo. Deixou de lado a política e foi morar em sua fazenda, na cidade de Natuba, onde morreu meses depois.

No cumprimento de uma burocracia formal, o juiz Caldas Brandão, se dirigiu então ao palácio do governo para levar ao titular as condolências pelo passamento de seu antecessor. Camilo teria agradecido polidamente a visita de pêsames, mas para sobressalto do magistrado disse que Antônio Pessoa iria para o inferno e seria recebido pelo diabo com uma festa que duraria uma semana. A frase abismou intensamente a opinião pública do estado, desolada pela notícia da perda recente de um protuberante político. Antônio Pessoa Filho, em protesto, deixou o cargo de prefeito da capital, aumentando exponencialmente a crise política na Paraíba.

A situação chegava perto da desordem, a ponto de a Igreja tentar exercer sua função de conciliadora. O bispo d. Adauto Aurélio de Miranda Henriques procurou o governador, disse não acreditar que teria saído dele a execração que corria à boca miúda pela Paraíba e lhe pediu que fizesse um esclarecimento público para impedir uma crise política de graves consequências. Camillo de Holanda respondeu:

 

Meu bom dom Aurélio, Vossa Excelência Reverendíssima sabe que eu jamais diria uma coisa dessas! Que mal o diabo me fez pra eu lhe desejar a péssima companhia de Antônio Pessoa?

 

A consternação era geral, e diante da humilhação pública, a viúva de Pessoa foi ao Rio para se queixar ao cunhado Epitácio, que continuava, à distância, mandando na vida política paraibana. Irritado, raivoso, Epitácio abjurou o protegido e jurou varrê-lo do mapa do governo do estado. Com o fim de seu mandato, também se encerrou a carreira de Camilo de Holanda, que nunca mais conseguiria ser eleito para nenhum cargo.

Segundo conta Ariano Suassuna em trabalho de sua autoria, tempos depois, já na década de 1930, um amigo seu, de nome Fernando Nóbrega, avistou Camilo de Holanda, já bem velho, caminhando pela então rua Nova, em João Pessoa. Ele se aproximou e disse:

Doutor Camilo, com muito respeito, eu venho lhe dar uma notícia.

Faleceu dona Mariquinha, a viúva de Antônio Pessoa.

O ex-governador respondeu:

—— Que dia triste, Fernando, que dia de luto.

Ao ouvir a resposta, o amigo de Ariano pensou: “Bem, com a idade, o homem amansou”. Mas não teve tempo de pensar mais nada, pois Holanda concatenou:

— Que dia de luto no Instituto Butantã. Quer dizer que aquela velha serpente morreu?

São José de Piranhas, janeiro de 2020.

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