VIVA O POVO BRASILEIRO (Os capitães do mato de cada dia); é o novo artigo de Marcos Thomaz

7 da manhã.

 

Sol a pino da primavera mais veranil que já se viu pelas bandas de João Pessoa.

 

Ônibus nem tão cheio, mas sensação de abafamento pior que uma panela de cuscuz…

 

Trânsito lento, quase parado na Principal dos Bancários, naquele padrão cotidiano!

 

De repente freada brusca e veículo estancado…

 

De onde estou não tenho visão do ocorrido, mas os relatos são de uma “quase” batida!

 

Daí irrompem os primeiros impropérios contra o motorista: “barbeiro, vá dirigir uma carroça,sabia que esse infeliz iria causar uma batida”

 

A motorista do veículo envolvido no, até então, “quase acidente”  aparece a porta do ônibus e logo é a próxima a receber os apupos, claro sem deixar passar a nossa tradicional pitada de machismo diário: “sai daí mulher, vai arrumar o que fazer, tira o carro daí”.

 

Após a moça se retirar, volta a algazarra dirigida ao motorista do buzu: “preciso trabalhar, estou atrasado,  liga esse ônibus logo” e todas aquelas mensagens retiradas do apócrifo evangelho das ruas…

 

Neste momento o próprio motorista já avisava que a “quase batida”, foi de fato, uma “leve encostada” e avisava aos passageiros que um outro veículo estava se aproximando para nos pegar.

 

Logo, fomos descendo em meio a mais murmúrios, queixas e maldições contra o condutor do nosso ônibus!

 

O detalhe é que para a lotação do próprio ônibus o motorista estava certo, nâo teve qualquer culpa no acidente,  mas isso não o livrava de ser alvo da turba ensandecida simplesmente porque a horda estava contrariada pelo contratempo de esperar.

 

Alguém tem que ser responsabilizado, ser transformado em alvo para aliviar a frustração coletiva, mesmo que isso os faça injustos, levianos, desonestos! Sem falar no fato de que o emprego do trabalhador estava em jogo. Viva o justiçamento!!

 

Neste trajeto até o outro ônibus a nos resgatar observamos o veículo envolvido no acidente. Naturalmente todos se viram para observar. Há duas mulheres dentro… a condutora apenas observa, mas a passageira se inclina para fora e com ar zombeteiro acena em sinal de tchau, enquanto sorri sarcasticamente.

 

O veículo era um desses populares, linha de entrada de montadora, mas a postura indicava que a miopia da cidadã a fazia enxergar-se como uma aristocrata/sangue azul frente a plebe! Típico dessa classe média, média-baixa, mais baixa que média, mais baixa da baixeza brasileira! O oprimido que sonha em ser opressor. Um país erguido sob a mira mordaz, vil de capatazes e capitães do mato!

 

Como homenageou em tom de ironia, no título da sua mais célebre obra, João Ubaldo Ribeiro: “Viva o Povo Brasileiro“!

 

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