“Sobre Homens das Neves, a Monga e uma vã filosofia brasileira”; por Marcos Thomaz

Diferente de boa parte das pessoas da minha geração, a minha relação com desenhos, super-heróis e todo esse universo mágico das animações veio a se estreitar tardiamente e, fundamentalmente, motivada por forças externas. A maior das energias, vale frisar… Primeiro, o meu filho mais velho, Tom, me “arrastou” para a infindável batalha “Marvel x DC Comics” e toda a força cósmica que essas histórias preenchem no imaginário de “legiões” há coisa de um século!! Na sequência, o caçula Ben me fez mergulhar de cabeça em um mundo ainda mais coloridinho e aparentemente (apenas aparentemente) bobinho de Minions, Incríveis, Touro Ferdinando etc etc etc…

Nesta toada a minha última imersão nesse “inocente mundinho animado” foi em uma sessão coletiva familiar (papai, mamãe e Benjamin) para assistir ao filme “Pé Pequeno”. Sabe a milenar lenda oriental acerca do “Abominável Homem das Neves”?? Não, não amigos, não Estou falando da aguardada aparição da “Monga”, na Festa das Neves, em João Pessoa!! Isso também é assustador, mas a estória a que me refiro aqui tem origem nas cordilheiras do Himalaia, local onde segundo o folclore local vivem os Yetis, seres gigantes e amedontradores!!

Pois bem, me aconchego despretensiosamente para a sessão “cinema em casa” e o “Pé Pequeno” me apresenta uma divertida, magnífica e colorida viagem filosófica! Em claras referências ao “Mito da Caverna” de Platão, o enredo se desenvolve em uma comunidade de Yetis (Pés Grandes), que vivem isolados no topo de uma montanha. Sem qualquer contato externo (aliás crentes de que não existem “outros”), eles mantem sua rotina alegre, organizada e sem qualquer “ponto fora da curva”, baseados em crenças absolutas derivadas de um código de “Pedras Sagradas”, uma espécie de mandamentos e verdades absolutas sobre tudo preservadas por um guardião das Pedras e líder geral local. Como na alegoria clássica da filosofia grega, todas estas falsas ou meia verdades acreditadas séculos a fio por aquela comunidade são desmitificadas a partir do questionamento, obstinação e, porque não, teimosia, inquietude de alguns membros a se render aquele conjunto de dogmas…

Além de doses cavalares de diversão com traços gráficos precisos e enredo bem costurado, o lúdico roteiro se engrandece com diálogos cortantes e inquietantes na medida certa para pequenos e grandinhos!! De lambuja, PÉ PEQUENO nos estimula a reflexão de que a mesma força original que sedimentou a construção do saber na Grécia Antiga e por extensão legou isso ao Mundo Ocidental, faz da Filosofia pedra fundamental para uma fictícia comunidade de “Abomináveis Homens das Neves” no Nepal, ou reafirma que a mesma Filosofia é disciplina essencial para o castigado povo nordestino!! Certo, senhor Ministro da Educação?? Meu caro Abraham, assim como o conterrâneo nordestino Caetano, “nois aqui de riba ‘Mora na Filosofia”! E tampouco estamos falando de conhecimento filosófico adquirido em cartas de Tarô “Olavianas”, tá OK?? Com todo respeito aos tarólogos…

Em tempos de trevas quase institucionalizadas no Brasil, inspirar-se nos supostamente selvagens Yetis do Himalaia pode ser alentador. Acredite… Se na estória dramatizada por lá, eles desconstruíram mitos, aqui, abaixo dos trópicos e na vida real, a desconstrução é do conhecimento, saber instituído, substituição do valor científico por crenças religiosas e todo tipo de patifaria: a Terra se aplanou, o Nazismo foi um movimento de esquerda, o famigerado golpe militar um mero movimento de poder blá, blá blá

Bom, se a coisa apertar ainda mais por aqui, resta a esperança de fugirmos para as montanhas e pedirmos abrigo aos “Pés Grandes”!

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