NATHALIA BELLAR, A EXPANSÃO ESPACIAL DE TOTONHO (Quando uma versão supera a gravação original de uma música) – novo artigo de Marcos Thomaz

Sempre me soou estranho, pedante essa necessidade de consumidores e críticos especializados estabelecerem comparações de versões de música. Digo isso referente aquela velha prática de estabelecer uma real disputa entre os trabalhos, enaltecendo um novo arranjo para desqualificar em absoluto a original. Não nego que, de fato, existem regravações que dão a impressão de transformar a canção, revelam “forças ocultas”, evidenciam uma “aura” que estava ofuscada, no trabalho de origem. Mas penso que os elementos já habitavam o original, são apenas formas de manifestar distintas de quem se propõem a fazer a releitura. E é daí que vem o mérito de quem faz a adaptação e traz nova luz sobre o original…

Mas digo tudo isso apenas para me contradizer (às favas com a coerência) logo em sequência e cravar que o que Nathalia Bellar e banda fizeram foi exatamente superar a genial “Eu mandei meu amor pro Espaço” do caba Totonho. Isso mesmo, eu, que já escrevi aqui sobre o que representa a iconoclasta figura e obra de Totonho, o homem que carrega uma metrópole em si, desconstrutor e reconstrutor de um monte de sonoridade, verso, rima e tantas outras engrenagens. Pois bem, meu caro, devo informar-te que “emolduraram” sua obra prima! Mas antes de me aprofundar nesse episódio da “criatura engolindo o criador”, vale um passeio por algumas coisas que me fazem despertar a imensidão dessa canção. “Eu mandei meu amor pro espaço” é daquelas jóias raras, música que parte de uma frase irônica, metafórica(o título) para construir uma canção de desenfreado, extraterreno amor, ambientada em um inusitado universo de ficção científica (como bem define meu amigo Eliseu). Veja bem, se Hollywood produz o romantismo meloso de “Armageddon”, o caba paraibano traz amor espacial em estado de poesia bruta! Tudo isso pontuado por uma suave, quase doída melodia.

Pois bem, a versão executada por Nathália Bellar no último Palco Tabajara Ao Vivo e que está no novo CD dela “Catavento”, explora cada uma destas nuances e virtudes, dando ainda maior vazão e destaque a cada passagem. O arranjo de Pedro Medeiros cria a “cama” perfeita, com  alternância de climas bem estruturadas, da calmaria inicial do lançamento do foguete a finalização da jornada espacial com uma acelerada pegada rock e inusitada citação de “Day Tripper”, daquele quarteto lá de Liverpool!

As múltiplas referências, aliás, constituem um dos trunfos da apresentação de Nathalia Bellar… entre suaves menções sonoras e execuções das músicas propriamente, ela passeou de Totonho a Edson Gomes, flutuou de Caetano Veloso a Beatles. Como artista completa que se propõe, também se desafia no terreno da composição ao apresentar “Menina” e lançar mão de talentos locais como na bela “Furtacor” de Wister e na versão de “Farinha de pó de Estrela” do sempre inspirado Titá Moura, aquele capaz de “guardar a lua em um pote de margarina” etc…

Diversa, polivalente e muito bem calcada, cercada. A maioria dos arranjos apresentados no Palco são de Rodrigo Campelo, que assina também a produção do novo disco. Em outros, Pedro Medeiros e Jader Finamore se alternam, ou dividem a coordenação musical. Completam o time Rhuan Pacheco, no baixo e Felipe Ceará, na bateria e programações.

Este suporte sonoro abre a trilha para Nathalia “desfilar” seu domínio de palco e esbanjar talento. Ali ela se agiganta, preenche todos os espaços e navega suavemente por todos os estilos musicais despejando na dose certa sua verve teatral, herdada do início da carreira. O novo trabalho, que será oficialmente lançado em show em janeiro, traduz este amadurecimento e alcance de novo estágio na trajetória dela. Mais uma amostra primorosa da inesgotável fonte e veia artística desta terra chamada Paraíba!

Ah, você pode conferir a versão de Nathalia Bellar para “Eu mandei meu amor pro espaço” no Palco Tabajara Ao Vivo, clicando no link abaixo:

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