VELHOS ROCKERS, NOVOS IMPULSOS… – relata Marcos Thomas sobre roqueiros paraibanos

No intervalo de apenas dois dias tive o prazer de rever no palco dois remanescentes da época em que tive os primeiros contatos com a cena rock paraibana: Flávio Queiroz e Pedro Faissal. Dois dos mais incendiários frontmans locais, líderes com grande presença de palco. Mais do que a nostalgia e alegria em revê-los em ação, fica a satisfação de constatar que estão em plena forma, com energias renovadas e ainda muita lenha a queimar!!

O Flávio C foi a primeira “banda local” a me fisgar! Recém ingresso na UFPB, nos bons tempos de Decom, lá no longínquo ano de 1999, ainda no século passado (tempo implacável). Flávio Queiroz, líder e um dos vocalistas da banda, era também responsável pelas cortantes letras do quinteto. Som Power pop, quase cru… melodias assobiáveis, resvalando nos hits radiofônicos (alguns até eram, de fato)… Poesia direta, ainda crua, retrato da velocidade e quase insanidade urbana de uma João Pessoa, que começava ali, o boom demográfico e econômico que se estende até hoje! Além do desbravamento em uma calourada da vida, posteriormente tive a oportunidade de organizar shows com a presença da Flávio Cavalcanti, em uma das edições do Festival Aumenta que é Rock! Puro deleite. Do Flávio C, aliás, surgiu uma das grandes e boas parcerias que o AUMENTA sedimentou nessas andanças rock de João Pessoa: Edy Gonzaga, mas isso é uma outra história…

Durante a Feira Internacional de Negócios Criativos e Colaborativos do Sebrae, pude  rememorar as performances explosivas, inquietas de Flávio Queiroz, em seu novo projeto, o Primavera Blue.  Rock com melodias duras, sem firulas, mas pitadas de liberdade sonora em flerte com bolero (Jodele) e um inusitado e divertido samba, com direito a letra “na pegada” dos bambas!! Há muito do pop furioso, resvalando no punk e casado com o pós punk, do Flávio C, no Primavera Blue…a poesia concreta (A Palavra), refrões rápidos etc, mas tem características próprias ali: o minucioso trabalho de timbres, riffs minimalistas e ecléticos de Guilherme Fechine é precioso!! Mas, como diz o amigo Jesuíno (e quem sou eu para questionar o decano do rock na PB??) há aqui e acolá algum vazio, lacuna sonora na banda! Não sei se uma outra guitarra, teclado, enfim… Algum elemento extra para “preencher a bolha sonora”. Fato é que Fábio continua catártico, “roubando a cena”, com domínio total do palco. Parece ter ensaiado metodicamente cada “ato encenado”, mas longe de qualquer artificialidade nos movimentos. E o discurso continua incisivo, rasgando palavras e ferindo na pele os convencionalismos.

A outra “antiga novidade”, Pedro Faissal, conheci no “finado” Projeto 50, banda seminal no rap-rock paraibano na primeira metade dos anos 2000. Sem qualquer demérito na analogia, o inverso disso,  o Projeto 50 era uma espécie de Rage Against The Machine de João Pessoa. Cozinha furiosa, coesa, com vocal acelerado e contundente. Massa demais. Aliás “Normal demais é mal demais…” Curiosamente o guitarrista da P50 era o mesmo Guilherme Fechine que hoje está no primavera Blue. Enfim…

Pedro há uma década toca seu projeto com a banda Meiofree. Já os havia visto em outras oportunidades e confesso que, apesar de ter gostado de muita coisa, tinha dificuldade de entender muito a proposta, ainda achava um tanto confusa a idéia final.

O último show que vi, no “Sítio”, casa bacana no Bessa, revelou a Meiofree em sua completude. Apesar do pouco público e, por conseguinte, energia em baixa voltagem no lugar, o quinteto estava em “curto” no palco. Som redondíssimo, equilíbrio perfeito da mistura de sambarock, rock, rap e, porque não??, o repente e embolada nordestinos. Destaque para o encaixe justo, dos sinths, batidas, efeitos eletrônicos, pífano, pandeiro sutil e precisamente inseridos pelo André Antério (outro “sobrevivente” do rock passado, à época embalado por Cerva Grátis-literalmente- e afins…). Mas sigamos…

A sensação é que o MeioFree e seu “linha de frente”, Pedro Faissal, encontraram a dosagem certa dos estímulos que os fazem pulsar. O homem consegue sintetizar, reunir em um mesmo corpo a rebeldia irônica dos Beastie Boys, a fúria do já mencionado Rage Against The Machine, a batida suingada do Jorge Ben, o regionalismo de Jackson do Pandeiro etc. Uma miscelânea harmonizada! E o “verbo” segue afiado, como indica a visceral Brasil Colômbia!!

Dá um play no rock da Paraíba aí…

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