NA SABINO NOGUEIRA – novo artigo de Demétrius Faustino

São José de Piranhas, ou Jatobá, como ainda insistimos em denominar, em meados da década de setenta, e na gestão do então prefeito Joaquim Lacerda Leite, época esta que já precedia alguns avanços tecnológicos e acontecimentos marcantes no Brasil, foi instalada uma repetidora de TV movida por um gerador a óleo diesel, cujo horário de funcionamento começava na boca da noite, e lá pelas vinte e duas horas esse gerador era desligado, com o intuito de poupar o precioso óleo.

Nesse período, poucos moradores possuíam aparelho de TV. Temos conhecimento que apenas nas residências do ex-prefeito Luiz Alberto de Paiva, e na do comerciante Douetts de Sousa, existia esse aparelho inicialmente.

Nesse tempo, a Rua Sabino Nogueira não era sequer pavimentada e nem é uma daquelas ruas que corta a cidade. Na verdade, a Rua Sabino Nogueira era e ainda é uma rua de média extensão, mas ali sempre residiu e residem famílias tradicionais da cidade.

Na casa do comerciante Douetts de Sousa, morador dessa rua, já tinha aparelho de televisão como dito, com imagem em preto e branco, cuja marca era talvez Philips ou Colorado RQ.

Nessa residência, e obviamente no período da noite, toda a família se reunia para assistir o reprodutor de imagem e som, e guardadas as devidas proporções, além da esposa e filhos, muitas pessoas se aglomeravam com o intuito de também assistir a televisão, já que o seu proprietário de forma democrática dava permissão para tal.  E muitos chegavam cedo, pois não tardando, teriam uma posição privilegiada.

Uns eram acolhidos pelo lado de fora da casa pois as janelas ficavam abertas, e outros tinham permissão para adentrar na sala e assistí-la sentados no sofá, ou no chão, quando não havia mais vaga nos estofados.

Não era uma imagem nítida como é atualmente, mas dava para visualizá-la. E os programas preferidos eram os de Flávio Cavalcanti, denominado “Um instante, maestro”, seriados como “O túnel do tempo”, “Viagem ao fundo do mar”, e “Perdidos no espaço”, além da novela “O Barba Azul”.

Mas como toda cidade interiorana que se preza, conta-se que no dia do último capítulo da novela da TV Tupi “O Barba Azul” cujos protagonistas eram Eva Wilma e Carlos Zara, faltou o valioso óleo, e um comerciante local o forneceu, no que ganhou a graça da ainda pequenina população de São José de Piranhas.

Durante a programação eram comuns as interrupções, onde na maioria das vezes a imagem da TV “chuviscava” fazendo com que, vez por outra, houvesse a necessidade de alguma pessoa ter que subir no telhado para mexer na antena.  Nesse tempo, a imagem e o som da televisão, vinha por várias estações repetidoras desde Fortaleza, passando pela região do Cariri no Ceará, até chegar à cidade mergulhada entre montes, ao contrário de hoje que vem por uma tecnologia super avançada.

E o mais jocoso, engraçado, é que quando a imagem perdia a sua limpidez e/ou o som cortava, o voluntário que subia no telhado para mexer na antena, diga-se de passagem, idêntica a uma espinha de peixe, lá de cima gritava: tá bom assim? melhorou? Concomitantemente, lá de baixo outro gritava avisando que a situação estava contornada ou não. E dizia mais, amarre bem o cano da antena porque hoje está ventando muito.

Posteriormente, inventaram a chamada TV pública, e na terra boa esta foi instalada no antigo terminal rodoviário Antonio Gomes Barbosa. Nesse local, o povão assistia às novelas e programas, que como dito, apenas da boca da noite até às 22:00 horas. E a expectativa ficava por conta da chegada do funcionário da prefeitura para abrir o cadeado da caixinha de metal e as duas portinhas que abrigava a TV, obviamente para a proteção da mesma, tendo em vista as chuvas que ocorriam em certos períodos, pois não havia vandalismo, ou se havia, era raro.  Lembro-me que o funcionário da prefeitura Assis Celeste fazia essa atividade, mas já pelos anos 80.

Tempos depois, já foi possível notar que a Rua Sabino Nogueira, cuja antiga denominação era Dezenove de Março, e outras alamedas, estavam diferentes, eis que o processo tecnológico surgia em nosso Jatobá, e a televisão um produto a ser adquirido de forma mais acessível.

Resgatando essas memórias, entendemos que muita gente daquela época, e que ainda hoje vivem, guardam essas lembranças. Quem não se lembra da famosa frase ou citação de Flávio Cavalcanti: Nossos comerciais, por favor! 

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