DICAS DE LEITURA E CINEMA: guia fundamental para compreender a sombria atualidade nacional e mundial

Literatura e cinema são duas de minhas paixões! E, como já frisei, aqui mesmo neste espaço, não precisam obrigatoriamente estar atreladas a engajamento político para me agradar. Longe disso… mas quando contemplam também esta “faceta” aí é puro deleite!!

Este ano tive contato com 3 obras nesta linha de abordagem política. Ambas apontando para poder, extremismo e risco democrático: primeiro o livro “Como as Democracias Morrem”,seguido dos filmes “Vice” (ficção inspirada em fatos reais) e “Democracia em Vertigem” (documentário).

Antes de qualquer coisa, o que ambas obras tem em comum?? A apresentação minuciosa de fenômenos que desencadearam essa onda neofascista mundo afora. As entranhas de movimentos e articulações que pavimentaram o caminho para surgimento de figuras autoritárias como Donald Trump nos EUA, Recep Erdogan na Turquia, Nicolas Maduro na Venezuela e Jair Bolsonaro no Brasil, dentre outros!

1)“Como as Democracias Morrem” é um refinado trabalho dos cientistas políticos norteamericanos, Steven Levitsky e Daniel Ziblatt. Na obra eles fazem um passeio geopolítico com abrangência de dados para apresentar o apogeu democrático mundial (década de 90) e o subsequente declínio, até desembocar no que podemos chamar de alerta vermelho atual com ameaça e crescimento de movimentos e ideologias extremistas espalhadas por todo o mundo. Apesar do caráter acadêmico, com métodos científicos de pesquisa, a leitura é fluente e pontuada por ilustrações precisas com associações diretas entre os fatos relacionados, como, por exemplo o crescimento do discurso de ódio entre os Republicanos(partido do presidente Trump) ter começado a recrudescer décadas antes da eleição de Donald Trump. Ou seja, Trump não é um fenômeno do Trumpismo, mas uma ação de oportunismo enxergada pelo próprio e aliados/adeptos dessa linha radical! Metaforicamente ele seria apenas a ponta da lança cravada sobre a sólida estrutura democrática norteamericana! Como sugestão rápida para entender esse fenômeno de radicalização política mundial sugiro um quadrinho de exercícios práticos com 4 questões criado pelos autores e disponibilizado nas páginas 33 e 34do livro“Como As Democracias Morrem” para identificar quais lideres representam ameaças reais. Qualquer semelhança com a tragédia democrática personificada na eleição do nosso presidente tupiniquim, passa longe de ser mera coincidência!!

2)“Vice” éuma ficção mais verossímil que muitos documentários que assisti. O diretor e roteirista Adam Mckay montou um estelar time de atores e com riqueza de dramatizações os personagens atingem grau de fidedignidade sublimes (Tyler Perry como o super secretário de Estado Colin Powell , Sam Rockwell fazendo George W. Bush, Christian Bale como o protagonista Dick Cheney etc). Com edição ágil, a película mescla imagens e episódios reais com ficção, em ritmo frenético, pontuado por diálogos agéis, incisivos, típicos das relações de poder global, especialmente em se tratando de figuras ambiciosas e com poder de articulação e manobra do gabarito de Dick Cheney. Para quem não sabe, Cheney foi o vicepresidente mais poderoso da história dos Estados Unidos, se valendo inclusive de brechas na interpretação da Constituição dos EUA para se autoinstituir poderes presidenciais. Um mestre da manipulação de informações. Um adepto inveterado do vale tudo contra os adversários políticos!Basta lembrar que a polêmica/controversa invasão ao Iraque, sob alegação de arsenal nuclear a serviço de Saddam Hussein, posteriormente desmascarada, foi comandada diretamente por Dick Cheney. Filme imperdível esteticamente e em conteúdo. Nada menos que 8 indicações ao Oscar…

3)Já o nacional “Democracia em Vertigem” é um belo mosaico confessional de Petra Costa. Sem nenhum pudor em expor a própria história e, até contradições familiares, a cineasta temporaliza o filme de forma sincronizada entre a sua vida e a história política nacional. Alternando imagens caseiras com registros oficiais o documentário tem início a partir donascimento da Petra, que coincide com a redemocratização brasileira, até a eleição de Jair Bolsonaro a presidência da República. Sempre narrado em primeira pessoa e não escondendo o tom passional em muitas passagens, “Democracia em Vertigem” realiza uma autópsia de todo o processo pós abertura até o acidente histórico em que nos encontramos com a ascenção de Bolsonaroao poder e tudo o que ele representa, ou nega! Um dos focos das críticas dirigidasa cineasta é a sua condução clara e assumidamente alinhada a esquerda… Na contramão dessa visão, a isso imputo méritos. Petra apresenta explicitamente suas credenciais ideológicas, mas não se omite de expor as fragilidades, cutucar as próprias feridas, apontar equívocos e parcela de contribuição da própria esquerda, que integras, na triste realidade em que fomos mergulhados!! Nem a sua família, fundadora da megaempreiteiraAndrade Gutierrez (uma das gigantes condenadas no Petrolão) é poupada das próprias responsabilidades!!

Faça a pipoca, abra a sua mente e boa diversão…

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