MEMÓRIA JUNINA – “O Forró daqui é melhor do que o seu!”; escrito por Marcos Thomaz

Todo fim de São João é nostalgia!!

Nenhuma manifestação, nenhuma tradição unifica mais um povo, uma “gente” do que os festejos juninos. Em muitos dos casos, os outros “grandes eventos” são forçações geopolíticas, afinidades por decreto, quase acidentes históricos. Aqui não, é nessa época do ano que a Nação Nordeste se soergue e se faz UNA. Não há paralelo no Brasil! Nem mesmo o carnaval, ricamente celebrado em vários cantos do país e também espalhado ao longo da região nordestina, possui a força pujante da simbiose entre cultura popular, tradição, religião e identidade regional!

Eu, como bom PARAIBAIANO (baiano de nascença e formação, paraibano de coração) com essa experiência multiplicada, carrego orgulho pra “mais de metro”, quase me sentindo a personificação da parceria Jackson do Pandeiro (PB) e Gordurinha (BA)- “baiano burro eu garanto que nasce morto”!!

Minhas primeiras lembranças das festas juninas remetem a minha lúdica infância em Buerarema,

interior baiano. Mais especificamente ao “Bloco da Rola”, assim mesmo, apropriadamente registrado com a malícia, jogo de palavras, despojamento comum ao nordestino.

O Bloco da Rola era uma imensa farra de agrupamento de famílias, com 4 dias de duração, movida a muito forró pé de serra, comilança, bebedeira e muita, muita alegria!! Esse universo de celebração era uma verdadeira confraternização de boa parte da população local e se cristalizou em tradição que rompeu limites municipais, valendo visita em comboio para participar de festejos de outra cidade a quase 100 quilômetros de distância. Voltando a festa, eu, invariavelmente, era par escolhido para a dança das “Tias”, visto que os maridos, via de regra, estavam envolvidos em atividades etílicas inadiáveis. Lá ia eu, mirrado, praticamente com o rosto esmagado entre as pernas das senhoras. Não sabia eu, mas já era uma espécie de rala coxa, só que com a cara! Era divertido, mas muitas vezes ia meio na marra, afinal tinha que deixar brincadeiras para atender a sanha dançarina das Tias.

Ali também chorei a eliminação do Brasil para a Argentina de Caniggia e Maradona na Copa do Mundo de 90 (ainda lembro daquele gol perdido por Muller), mas bastou o trio voltar o arrasta-pé, que o trauma se curou rapidamente. É também do lendário Bloco da Rola, de “Macuco” que ainda invade minhas narinas o cheiro – das meninas, das comidas típicas, das brincadeiras de época e do forró. Sim amigos, nas nossas lembranças, até o ritmo, a música tem aroma especial. Os sentidos se embaralham e nos transportam…

Mas eis que, com tanta experiência viva que carrego em mim, com tamanha lembrança sensorial que ainda pulsa comigo, amiúde, a boca pequena aqui e acolá, ainda me deparo com um petulante qualquer a querer questionar a autencicidade nordestina da cultura baiana?!?! Sem titubear, disparo logo um “Se saía! ‘Quem é você para derrubar meu mungunzá??’”.

Mal sabem esses incautos conterrâneos regionais, que enquanto eram alfabetizados já seguindo rigorosas normas nacionais, estava eu, há 30 anos, nos bancos da Escolinha Branca de Neve (alô mãe), ainda em “Buera”, começando a mergulhar no universo de letras embalado por Gonzagão “o jota é ji ii, o ele é lê êê, o esse é sí, mas o erre, tem nome de rê!” . Isso, na Costa do Cacau, ou seja “lá no meu sertão”, que, na verdade, se distancia quase 1.000 quilômetros do primeiro solo sertanejo baiano mais próximo.

Viva São João! Viva meu Nordeste!

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