FOLIA ENFADONHA; o novo artigo de Demétrius Faustino

FOLIA ENFADONHA

 

Demétrius Faustino

 

A data comemorativa mais próxima do nosso calendário, no sentido da irreverência, é o Carnaval, festa que representa uma espécie de liberação temporária dos sapateados, e tudo aquilo que é espiritual, e abstrato.

Em João Pessoa temos uma tímida festa momesca, e um momento pré-carnavalesco denominado Folia de Rua, e que de fato seus protagonistas o criaram para acontecer nesse período, exatamente para não atrapalhar a subserviência ao Estado de Pernambuco, pois para os criadores e muitos simpatizantes do Folia, o carnaval de verdade, e a hospitaleira amizade fica por conta de Olinda.

O período áureo do Folia de Rua cuja edição atual tem início em 21 de Fevereiro findou-se, em razão de que nesses últimos seis anos, não existe mais blocos e nem cordões acobertados por manifestações e reflexos culturais, e nem aquela mudança no espírito da irreverência carnavalesca, que é o objetivo desse tipo de festa, a exceção dos Blocos Muriçocas do Miramar, e do Cafuçu (Leia-se que o Violando a Madrugada e Raparigas de Chico não acontece nessa época).

Foi-se o tempo em que o Folia de Rua reinava no frevo, pelo menos em nossa Paraíba, e aflorava uma espécie de subversivismo capaz de revelar, de forma satírica, as contradições que atravessam a realidade social brasileira.

O que se vê atualmente é tão somente um noticiário abundante e bajulador de muitos da mídia, espraiado pelas primeiras páginas dos jornais como se fosse uma grande festa, dando-lhes uma feição inteiramente diversa do que é atualmente: uma folia decadente, reprimida e enfadonha, e que já foi moldada num passado, de foliões autênticos, de um povo escovado e da fuzarca, que encontrava espaço para a afirmação de uma visão de mundo marcada pela crítica, pela espontaneidade, pelo humor e pela verve satírica. Isto não nos pertence mais há seis anos.

É verdade que com as mudanças drásticas ocorridas no país, a começar pelo golpe contemporâneo, há uma evidente resistência dos setores conservadores da sociedade, insistindo na repressão aos movimentos culturais, a exemplo de querer modificar a Lei Rouanet, o que é um absurdo para quem conhece essa norma de forma profunda. Esse projeto das elites de absorção da cultura popular causa reflexos também nas festas pré-carnavalesca e carnavalesca, e em qualquer outra existente no Brasil é bem verdade, o que historicamente podemos chamar de impermeabilização cultural.

Mas o Folia de Rua vai mais além, pois a própria organização do evento precisa urgentemente corrigir hábitos e costumes, em nome do interesse público e da cidadania.

Com a palavra as autoridades que se dizem carnavalescas, pois está na hora de por na prática e de verdade, esse discurso reformista e democratizante que não sai do papel.

João Pessoa, Fevereiro de 2019.

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