RECORDANDO HERZOG; por Demétrius Faustino

Mesmo tardiamente, ou melhor, passados 43 anos da morte de Vladimir Herzog, a família do jornalista, após as súplicas à Corte Interamericana de Direitos Humanos, conseguiu que esta finalmente, condenasse o Estado brasileiro pela sua tortura e morte em 1975, período de intensa ditadura militar.

O tribunal internacional também considerou o Estado como responsável pela violação ao direito à verdade e à integridade pessoal, em prejuízo dos familiares de Herzog. Tal fato lembra um exaltado candidato à Presidência da República, que vem defendendo esse tipo de crime mais que hediondo. Para o presidenciável, não há como atestar que Herzog foi assassinado por agentes da ditadura e citou a tese do suicídio para justificar a morte.

Na época, os militares ainda achando pouco criaram uma versão oficial mentirosa e cavilosa do assassinato, anunciando que Herzog cometera suicídio ao se enforcar com o cinto de seu macacão no DOI-CODI de São Paulo, que era um centro de castigo e tortura do II Exército.

Era um sábado, e por volta das três horas da tarde Vlado foi torturado até a morte, cujo sofrimento foi acompanhado por outros jornalistas que ali também se encontravam presos, do lado de fora da sala onde ocorria a tenebrosa sessão, e digo tenebrosa porque naquele momento o rádio estava ligado com toda intensidade, para que não se ouvisse as bordoadas, os choros e lamúrias, e os gritos fortes, que depois foram silenciados.

É bom lembrar que o jornalista nem cinto estava usando, e a verdade é que a polícia intimou-o na TV Cultura, onde era diretor de jornalismo, para comparecer na Delegacia, mas este fora levado para o centro de tortura supra mencionado. Vlado como era chamado pelos colegas, disse aos mesmos antes de cumprir a intimação, que não tinha nada a temer.

Mais tarde o cardeal D. Paulo Evaristo Arns, contou que os militares queriam calar Herzog e entupiram sua boca com lã para fazê-lo sofrer também. Como ele era cardíaco, o coração parou.

Não há estupidez maior do que matar alguém por uma acusação infundada, sem provas. Ou seja, Herzog foi morto pelo que não fazia. Sem olvidar que ele não era sequer militante, não usava o jornalismo como subterfúgio para a política, ao contrário, era venerado pelas suas atitudes profissionais.

Mataram um homem de forma equivocada.

João Pessoa, Julho de 2018.

 

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